No São João de Cruz das Almas, onde há fumaça, há espada
Entre o brilho da tradição e o silêncio da espera
Por: *Maria Lordêlo
O relógio ainda nem havia marcado as primeiras horas da noite quando as ruas de Cruz das Almas começaram a despertar. Não foi apenas o som dos fogos anunciando a Alvorada que tirou moradores de suas casas. Foi algo mais profundo, quase impossível de explicar para quem nunca viveu um São João de Cruz: a sensação de que junho finalmente chegou. Ainda era Maio, ainda era dia, mas o povo sentiu o chamado junino desde cedo no dia 31.
Pelas ruas famílias inteiras caminhavam em direção à praça da cidade. Crianças
nos ombros dos pais, grupos de amigos vestidos com camisas temáticas e idosos que carregam na memória décadas de festas formavam um cenário que misturava celebração e nostalgia. O tão ansiado “Esperando o São João” cumpria seu papel de inaugurar oficialmente o período mais aguardado do ano.
Mas, entre os sorrisos e abraços, havia também uma expectativa silenciosa. Uma
ansiedade que parecia percorrer as conversas, os olhares e até os intervalos entre uma música e outra. Era impossível ignorar a presença da ausência: o Show das Espadas.
Proibida há anos por decisões judiciais e por questões relacionadas à segurança
pública, a prática continua sendo um dos temas mais sensíveis quando se fala da identidade cultural de Cruz das Almas. Para muitos moradores, a queima de espadas representa lembranças de infância, histórias familiares e um sentimento de pertencimento que atravessa gerações. Para outros, a proibição é uma medida necessária diante dos riscos de acidentes e danos provocados pela atividade.

Na Alvorada deste ano, essa dualidade ficou evidente. Enquanto a cidade celebrava sua cultura, sua música e sua capacidade de reunir pessoas nas ruas durante todo o dia, muitos cruzalmenses marchavam em direção ao maior palco pirotécnico da cidade: a Rua da Estação. Considerada por muitos um dos símbolos dessa manifestação cultural, o clima de expectativa era evidente. Moradores e visitantes observavam atentamente cada movimento, enquanto relatos sobre antigas “guerras” e histórias de família circulavam entre os grupos reunidos.
Ainda que a proibição esteja em vigor, o povo se recusa a deixar para trás o que levou a cidade tão pra frente. A cultura das espadas ainda não desapareceu do imaginário, nem completamente das ruas. As muitas tocadas registradas ao longo da celebração demonstram que a prática continua presente entre grupos que insistem em manter viva uma tradição considerada por eles parte fundamental da história local.
Talvez seja essa a maior característica da Alvorada cruzalmense: sua capacidade de reunir passado e presente em uma mesma madrugada. Entre memórias e transformações, entre o que permanece e o que mudou, Cruz das Almas segue celebrando sua identidade.
E, enquanto junho avança, Cruz continua vivendo esse sentimento tão particular: a
alegria da festa que chegou, e a expectativa silenciosa por aquilo que a cidade se recusa a abandonar.

*Maria Lordêlo é estudante de jornalismo na UFRB (Unversidade Federal do Recôncavo da Bahia) e colaboradora do portal Acesse News.
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