23 de junho e as faíscas juninas na alma de uma migrante baiana em Curitiba
Por: *Sarah Roberta
Noite de São João. O chão onde estão minha casa, meu quintal, meus livros, minha rede, minhas panelas, meu jardim, meus álbuns de fotografia, meu altar, minha família e muitos(as) dos(as) tantos (as) amigos(as) que tenho nesta vida, está em festa. Tudo lá, em Cruz das Almas, hoje, se reveste de beleza, fé, amor e renovação.
Um existir em ciranda. A brincadeira como o sino das horas. Os casais dançam forró, as crianças tocam fogos e a mesa farta convida para o humanizante ato de partilhar. Tem amendoim, licor, milho, bolo e canjica. Um rito lindo, colorido, simples, profundo. “Xote, maracatu e baião”.
As canções do nosso amado Luiz Gonzaga e de tantos(as) outros(as) brilhantes artistas nas caixas de som. O chapéu de palha na entrada da porta de casa e nossa blusa quadriculada passadinha em cima da cama pronta pra nos enfeitar junto com a flor no cabelo. É muita alegria, minha gente…
Daqui a pouco o astro pernambucano da música, João Gomes, subirá ao palco. Os aplausos virão, eu sei, e toda a cidade de Cruz das Almas guardará conjuntamente uma mesma memória coletiva, porque é este o horizonte dos festejos de São João: produzir comunhão, convocar a harmonia social, retomar a roda na rua.

Ah, e isso as sociedades nordestinas sabem fazer com louvor. Hoje, 23 de junho, é no Nordeste que o Brasil é mais Brasil, é no Nordeste que o encanto se faz presente e não arreda o pé por nada neste mundo. Nem tentem chamá-lo pra outro lugar que ele não vai, nem adianta. Que saudade!
Meu amigo e confrade Hermes Peixoto, poeta, escritor e cordelista, carinhosamente, nos enviou a foto da fogueira que ilumina o seu lar, e ela veio com esta poética legenda: “a fogueira mais bonita da cidade”. Concordei, agradeci e o coração se aqueceu aqui em Curitiba, nesta parte de Brasil onde o letramento para o afeto tem ainda uma estrada bastante longa pela frente.
Rezo para que ela tenha forças e coragem para percorrê-la! Rezo para que sua população compreenda o valor que é vivermos em comunidade. Sendo eu lá daquelas terras quentes da Bahia que não economizam nem beijo, nem abraço e nem chamego, afirmo: os ganhos são os maiores, a começar pelo tanto de alma que passamos a colocar em tudo que fazemos.
*Obs.: esta crônica foi escrita ontem, dia 23, antes do show de João Gomes, que foi mesmo sensacional e aconteceu por volta de meia-noite.

*Sarah Roberta de Oliveira Carneiro, é professora da UFRB, está em pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integra a Academia Feirense de Letras (AFL) e a Academia Cruzalmense de Letras (ACL), da qual é presidenta. – Publicou “Miudezas de uma cidade do interior, escritos sobre Cruz das Almas” (Conspire edições, 2017; 2018) e “Se a cidade fosse uma mulher?” (Conspire edições, 2025). Integra as obras coletivas “Voos essenciais; palavras arregrais” (Luminosa Livros, 2021) e “Águas de muitas fontes” (Conspire edições, 2021). É uma das autoras do podcast Garrafas Almar.