Sete cidades brasileiras se unem para incluir ação climática nos orçamentos municipais
Em São Paulo, cidades se reúnem para estruturar e fortalecer sistemas de governança para atingir metas climáticas e prevenir eventos climáticos extremos
*Por: Assessoria de Comunicação
Enchentes que engolem bairros inteiros em uma noite, secas que esvaziam reservatórios e obrigam as pessoas a racionar água, encostas que desabam depois de horas de chuva. Cenas assim deixaram de ser exceção no Brasil, como aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024. Para reagir melhor a esse cenário e proteger seus moradores, as prefeituras de sete cidades brasileiras se reuniram esta semana em São Paulo durante o primeiro encontro da Academia de Orçamento Climático (Climate Budgeting Academy).
As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Recife e Campinas discutiram a inclusão da ação climática como peça chave dos orçamentos municipais. O encontro é parte do Programa Mutirão Brasil, iniciativa conjunta das redes globais C40 Cities e Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia (GCoM).
Na prática, o Orçamento Climático cria uma espécie de etiquetagem climática para as despesas e um sistema em que cada órgão deve considerar as informações dessas etiquetas na hora de planejar seus gastos. Ao entender com mais clareza quais gastos ajudam ou prejudicam o clima, a cidade pode direcionar o dinheiro público para ações com maior potencial de reduzir emissões e preparar a cidade para eventos extremos e rever aquelas que podem eventualmente trazer danos. É como fazer a sua lista de compras de supermercado consultando o rótulo: você decide o que comprar ou não considerando como aquele produto impacta o meio ambiente.
Entre os exemplos que as delegações analisam durante a Academia, o de São Paulo é hoje o mais avançado e concreto e ajuda a mostrar, na prática, o que as demais cidades podem construir a partir dos próximos passos. Em novembro de 2025, durante o Summit Agenda SP+Verde, o prefeito Ricardo Nunes assinou o decreto que estruturou o orçamento climático da cidade, que prevê R$ 28,8 bilhões para 2026, dentro de um pacote de R$ 122 bilhões até 2029. É cerca de um quinto de todo o orçamento da cidade passando a ter rastreabilidade climática, sendo possível inclusive consultar o quanto desses recursos estão indo para cada região da cidade.
O mais interessante é a quebra da ideia de que clima é assunto só da secretaria de meio ambiente. A maior fatia desse valor vai para mobilidade urbana, seguida de sustentabilidade ambiental, habitação e gestão de riscos e resiliência a desastres. Ou seja, boa parte do orçamento climático de São Paulo está, na verdade, em transporte e moradia, áreas que mais afetam a vida de quem enfrenta calor, enchentes e poluição no dia a dia.
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Na prática, isso aparece em ações que o morador consegue ver: mais de mil ônibus elétricos já rodando (cada um deixa de queimar 35 mil litros de diesel por ano), centenas de quilômetros de ciclovias, além de metas como jardins de chuva e novos bosques urbanos, pensados justamente para segurar a água e baixar a temperatura nos bairros.
“O orçamento climático de São Paulo é uma ferramenta pioneira, que permite o monitoramento dos recursos que a maior cidade do Brasil investe na política pública imposta pelo aquecimento global. Em 2026, quase trinta bilhões de reais têm essa destinação, nítido testemunho de que a gestão Ricardo Nunes leva a sério a adaptação da metrópole para enfrentar os fenômenos resultantes da atividade humana em desfavor do ambiente“, comenta Renato Nalini, Secretário de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo.
Eventos climáticos extremos já são rotina nas cidades brasileiras e tendem a se intensificar com fenômenos como o El Niño, que historicamente intensifica secas no Norte e chuvas no Sul, como aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024. Estudos conduzidos pelo Cemaden, da USP, e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que entre 1991 e 2024, 91,5% dos 5.570 municípios brasileiros enfrentaram pelo menos um desastre ligado a inundações, deslizamentos, tempestades ou secas. No período, foram quase 4,8 mil mortes, mais de 129 milhões de pessoas afetadas e prejuízos superiores a aproximadamente R$ 629 bilhões.
“Cada cidade que aprende a ler o próprio orçamento pela lente do clima passa a decidir com mais critério onde construir, o que priorizar e quem proteger primeiro quando a próxima enchente ou seca chegar. Reunir as sete cidades ao mesmo tempo acelera esse aprendizado e ajuda a espalhá-lo pelo país, transformando o que hoje são casos isolados em uma nova forma de administração municipal no Brasil. A proposta é olhar exemplos como o de São Paulo, que já publicou seus primeiros orçamentos climáticos, para que as demais cidades possam definir os primeiros passos de forma prática, as outras delegações não voltem para casa apenas com teoria“, explica Ilan Cuperstein, Diretor Regional para a América Latina da C40 Cities.
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Programa Mutirão Brasil
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A Academia de Orçamento Climático (Climate Budgeting Academy) é uma das frentes do Programa Mutirão Brasil, que nasceu no embalo da liderança climática do país e da presidência brasileira da COP30. A lógica do programa é simples: em vez de deixar cada prefeitura reinventar a roda sozinha, ele conecta governos locais, governo federal e parceiros internacionais para acelerar projetos que já estão prontos para sair do papel.
Hoje, o Mutirão Brasil apoia mais de 50 municípios e estados no desenvolvimento de cerca de 20 projetos nas áreas de mobilidade urbana sustentável, gestão de resíduos e planejamento climático na Amazônia, e o orçamento climático é uma das ferramentas transversais que o programa oferece para que esses projetos ganhem musculatura financeira. A Academy dá sequência ao trabalho já iniciado no âmbito do Programa Cidades Verdes Resilientes, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e ao curso sobre o tema disponível na plataforma Apolitical.
“Orçamento climático não significa necessariamente gastar mais, mas gastar melhor. Quando uma cidade entende como os recursos contribuem para suas metas climáticas, ela consegue transformar planos em prioridades de governo e direcionar o dinheiro público para ações que reduzem emissões, protegem a população e preparam a cidade para os impactos climáticos que já estamos vivendo. Fenômenos como o El Niño mostram por que as cidades precisam estar preparadas antes que os eventos extremos aconteçam, e isso significa trabalhar para que cada departamento da prefeitura enxergue sua contribuição e responsabilidade nesse processo. O Mutirão apoia os municípios para que possam incorporar as metas e riscos climáticos de forma proativa ao seu planejamento, fortalecer sua capacidade de prevenção e direcionar recursos para proteger a população, em vez de apenas responder de forma reativa aos eventos climáticos depois que eles acontecem“, afirma Sara da Silva Freitas, Gerente Sênior de Orçamento Climático do Programa Mutirão Brasil.
Sobre Mutirão Brasil: O Programa Mutirão Brasil é uma iniciativa estratégica da C40 Cities e do Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia (GCoM), que busca acelerar a implementação da ação climática em cidades brasileiras por meio da cooperação entre governos locais, governo nacional e parceiros internacionais. Lançado no contexto da liderança climática do Brasil e da presidência da COP30, o programa transforma a ambição climática em resultados concretos, fortalecendo as condições necessárias para que cidades desenvolvam e avancem projetos de alto impacto. A iniciativa apoia +50 municípios e estados brasileiros no desenvolvimento de 20 projetos prontos para financiamento nas áreas de mobilidade urbana sustentável e gestão de resíduos, o planejamento climático na Amazônia, ao mesmo tempo em que mobiliza apoio transversal em finanças climáticas, acesso a dados, diplomacia climática, orçamento climático, e ação climática inclusiva. O Programa Mutirão Brasil demonstra como parcerias multiníveis entre os governos nacionais e os locais aceleram a implementação da ação climática onde ela mais importa: nas cidades, posicionando o Brasil como uma referência global de governança climática multinível e de implementação em escala até 2027. – A Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) atua como parceira facilitadora do programa, fortalecendo a articulação com lideranças municipais em todo o país. O Mutirão Brasil é implementado em colaboração com uma ampla coalizão de parceiros técnicos, incluindo WRI Brasil, ICCT, Instituto 17 + Instituto Pólis (i17), Cities Climate Finance Leadership Alliance / Climate Policy Initiative (CCFLA / CPI), Urban Climate Change Research Network (UCCRN), ICLEI América do Sul, Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBC) e Associação Brasileira de Municípios (ABM). O programa também conta com coordenação estratégica com o Ministério das Cidades (MCID), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Presidência da COP30, o Conselho da Federação, a Casa Civil e outros ministérios do Governo Federal, fortalecendo a cooperação entre os diferentes níveis de governo para acelerar a ação climática no território.
- Conteúdos assinados são de responsabilidade dos próprios autores e das autoras.

