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“O Agente Secreto” merece todas as honrarias e o nosso frevo no pé

Por: *Sarah Roberta

Muito a dizer sobre o inquietante e inventivo “O Agente Secreto”. Por um lado, gostei bastante, por outro, tenho cá minhas poucas críticas. Mas, indiscutivelmente, é um filme que merece os prêmios já recebidos e os que ainda estão por chegar. É cinema no sentido completo da palavra; inclusive preciso comentar que é sensacional nos sentarmos em uma sala de cinema para vermos um filme brasileiro e na abertura estarem lá os carimbos de premiação do Festival de Cannes de Melhor Ator e Melhor Direção.

Oh, glória! Pense num contentamento… Dito isso, sinto-me chamada a afirmar que em “O Agente Secreto” há rastros de Glauber Rocha, Fellini, Paulo Freire e Augusto Boal. Pura confluência de seres brilhantes. Estão todos lá nos ajudando a adentrarmos [n]uma história de perdas, memória, vínculo, arquétipos, pequenas alegrias e solidariedade sem rosto. 

Qualquer filme naturalmente envolve muitos pontos de um mesmo amplo processo, mas, em se tratando de uma feitura de Kleber Mendonça Filho – que narra seu olhar a partir das bordas de um país continental onde inventaram de eleger como eixo o território da grana, mas não da criatividade genuína –, temos um novelo interminável de ideias. É muita coisa que se encontra, se mistura e se complementa diante dos nossos olhos.

Em “O Agente Secreto” está tudo lá: a revolta em ver a elite causando sofrimento às empregadas domésticas, a vibração do carnaval, a enigmática La Ursa, o sexo, a tragicômica perna cabeluda, a sátira ao pai que, uma vez presidente, além de ter sido péssimo para a população brasileira, deu um show de mau costume ao andar pra cima e pra baixo com os seus antipáticos filhos; a soberba do Sul-Sudeste sobre o Norte-Nordeste e muito mais.

Um dos momentos mais tocantes está protagonizado pela talentosa atriz Alice Carvalho, que em uma cena absolutamente primorosa transmite, com toda a propriedade do mundo, o bonito hábito que nós, que somos nascidos(as) e criados(as) no Nordeste, temos de evocarmos os nossos pais para afirmarmos quem somos, destacando o suor por eles e elas derramado, para assim exigirmos respeito e reivindicarmos a nossa dignidade. Que acerto! Que presente! 

Na tela o Nordeste que faz do Brasil o tanto de Brasil que o Brasil é, o Nordeste que lembra a este nosso país o riso que tempera os dias nas terras tomadas de sol, encontro e aconchego. Estarmos diante da pungente trajetória de Armando, ou melhor, Marcelo, tão bem interpretada pelo carismático Wagner Moura, nos move em direção ao tempo transcorrido e as injustiças acarretadas por um regime político deplorável e que se chama ditadura militar.

Era dezembro, véspera de viagem para a Bahia, e valeu demais ter ido, na companhia de Luciano, ao Cine Guarani, no Portão Cultural, assistir ao filme que deu asas à fantástica Dona Sebastiana, levou o frevo para a França e me fez, em Curitiba, enquanto os créditos subiam ao término da exibição, erguer o braço esquerdo e gritar: “viva o Nordeste”, para ouvir de volta como resposta um sonoro: “viva”! Em seguida, imitando Wagner e sua trupe, deixei a sala dançando frevo. Meu amor pela Bahia e por Pernambuco só cresce.

*Sarah Roberta de Oliveira Carneiro, é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e presidenta da Academia Cruzalmense de Letras (ACL)

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