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Os passos que damos na vida

Quando Betinho [o sociólogo e ativista, Herbert José de Sousa] morreu, eu lembro ter formulado a frase: “às vezes é ‘menos doloroso’ morrer a pessoa do que a imagem que se tem dela”. Os passos que damos na vida, o que construímos entre o nascer e o morrer, é o nosso verdadeiro patrimônio e merece receber o nosso zelo contínuo, insistente, permanente. Justo porque, por sermos humanos, somos contraditórios, levianos, imprudentes e erraremos, isso é certo.

Uma consciência que é fundamental termos, portanto, é que legado é das coisas mais refinadas e importantes da trajetória humana. Legado é vida que continua para além da carne, do sangue, da respiração. O sociólogo Betinho é um exemplo disso. Na década de 90, ergueu sua voz a favor da cidadania e, de forma elevada, o seu nome-imagem segue associado a ações solidárias que se voltam para a partilha do alimento entre os/as que, algumas décadas após a sua partida, inaceitavelmente, ainda sofrem de fome.

Tivesse alguma atitude manchado o seu caminhar, do ponto de vista ético, ele jamais teria entrado para a galeria das raras pessoas, que ao se inscreverem tão amorosamente no mundo, seguem, mesmo após a morte física, pulsando na condição de inspiração para gerações e gerações fora do circuito dos seus entes amados. É arrogante dizermos que não precisamos de faróis.

Sim, precisamos. Precisamos porque somos antecipadamente desamparados, precisamos porque carregamos doses de despreparo, desespero, medo. Precisamos porque escolhas, decisões, ações, comportamentos e condutas, não são do departamento da obviedade. Precisamos de Júlio Lancellotti, Lélia Gonzalez, Mãe Stella, Nelson Mandela, Luiza Bairros, Papa Francisco, Pepe Mujica, Rosa Luxemburgo, Marielle Franco.

Por isso, a notícia da qual tomamos conhecimento, a partir das denúncias de mulheres, incluindo a ministra Anielle Franco, de que o ex-ministro Silvio Almeida as violentou com práticas de assédio sexual, nos pega em lugares existenciais desconhecidos, nos arranca do terreno raso das opiniões, espanta a superficialidade, complexifica bastante a ótica: assediador desprezível x mulheres dilaceradas.

E termos o nosso repertório de leitura das relações de poder em sociedade tão, mas tão bagunçado, fere a nossa alma, encharca de lágrimas nossos olhos. Por isso, eu choro por Anielle Franco e as outras mulheres e me ressinto por ver desmoronar o conjunto de valores dignos que até aqui circundaram o jurista Silvio Almeida. Tudo dói.

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*Sarah Roberta de Oliveira Carneiro (sarah.palavra@gmail.com) é jornalista, escritora, dançarina e doutora em Ciências Sociais. Participa das ações do Coletivo Jacinta Passos. É também professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e presidenta da Academia Cruzalmense de Letras (ACL). Siga: @resistenciafeministacda/

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