PUBLICIDADE
Notícias

‘Acorda, demônio, vai trabalhar’, ‘baiano bom é baiano morto’: a rotina de humilhações de trabalhadores em condição análoga à escravidão no RS

Quem ler o Acesse News, já deve ter percebido que os textos de nosso conteúdo são redações próprias, mesmo quando utilizado informações oriundas de outras fontes. Exceção para algumas textos institucionais.

Mas no caso da matéria abaixo, devido as complexidades que a compõe (links, depoimentos, retratações, etc), optamos manter a fidelidade da sua redação integralmente, conforme o site que a produziu, o g1.

A observar pelo próprio título, percebe tratar-se de uma reportagem sobre a maneira surreal, repugnante e desumana, como seres humanos eram tratados em fazendas na região serrana do Rio Grande do Sul. Submetidos a trabalhos que assemelham a escravidão. Dias atrás, um vereador havia ofendido os baianos.

(Clique aqui e saiba o que configura trabalho escravo).

Confira aí a matéria

Depoimentos de trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão em Bento Gonçalves, na Serra do Rio do Grande do Sul, expõem o tratamento humilhante a que eram submetidos.

Foram resgatados 207 trabalhadores contratados por uma empresa para prestar serviços para vinícolas gaúchas durante a colheita da uva. O caso veio à tona em 22 de fevereiro, quando três trabalhadores procuraram a polícia após fugirem de um alojamento em que eram mantidos contra sua vontade. Eles relataram, ainda, nos depoimentos ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), terem ficado sujeitos a situações de agressão com choques elétricos e spray de pimenta, cárcere privado e agiotagem.

Os trabalhadores foram contratados pela Fênix Serviços Administrativos e Apoio à Gestão de Saúde LTDA para trabalhar na colheita da uva. A empresa oferecia a mão de obra para as vinícolas Aurora, Cooperativa Garibaldi, Salton e produtores rurais da região.

O administrador da empresa, Pedro Augusto Oliveira de Santana, chegou a ser preso pela polícia, mas pagou fiança e foi solto. As vinícolas que faziam uso da mão de obra análoga à escravidão devem ser responsabilizadas, de acordo com o MTE. Quase todos já receberam as verbas rescisórias a que tinham direito, em um valor que, somado, ultrapassou R$ 1 milhão.

A empresa rejeitou a proposta de acordo apresentada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) para pagamento de indenizações individuais aos 207 trabalhadores. Os representantes legais disseram não reconhecer o trabalho em condições semelhantes à escravidão.

Nos depoimentos, a que a RBS TV teve acesso, os trabalhadores, a maioria da Bahia, disseram ainda que:

  • Eram acordados aos gritos de “acorda, demônio, vai trabalhar”, entre 4h30 e 5h, de domingo a sexta-feira, por funcionários da pousada em que ficavam;
  • Também eram chamados de “demônio” com frequência por funcionários armados encarregados de vigiá-los;
  • Ouviam ofensas xenófobas como “baiano bom é baiano morto” e chegaram a ser agredidos com choques elétricos, cadeiradas, socos e spray de pimenta;
  • A jornada de trabalho, na prática, era de 15 horas diárias, com intervalo de uma hora para almoço. Os relatos apontam que a comida era fria e azedava porque era levada de manhã por um funcionário e mantida sem refrigeração;
  • A única folga era aos sábados, embora o combinado, inicialmente, afirmam, era que o domingo também seria dia livre de trabalho;
  • Os dormitórios na pousada não tinham lençóis, estavam em mau estado, com banheiros sujos e chuveiro frio;
  • O trabalho envolvia colher uva em parreirais e carregar e descarregar caminhões nas vinícolas;
  • Sem receber o salário de R$ 2 mil mensais combinados, pegavam adiantamentos com o dono da pousada, Fabio Daros, que lhes cobrava, segundos os depoimentos, juros de 50%. Assim, a antecipação de R$ 100 resultava em dívida de R$ 150, por exemplo, o que configura agiotagem. Um dos trabalhadores relatou dívida de R$ 1.950 com Daros, após ter pego R$ 1,3 mil antecipados; o g1 ligou para Daros na sexta (3). Ele não atendeu à reportagem;
  • Segundo os depoimentos, eram obrigados a comprar de um mercado próximo, apontado como sendo também de Pedro Santana, que os contratou; no local, os preços eram superfaturados: um pacote de biscoito chegava a custar R$ 15. Um saco de pão, R$ 10. Já um sachê de suco em pó, R$ 4.

Em nota na quinta-feira (2), a Fênix, de Pedro Augusto Oliveira de Santana, disse que sempre reconheceu e protegeu “a dignidade de todos os seus colaboradores através do respeito, seriedade e cumprimento, de forma rigorosa, dos ditames da lei”. Falou ainda que está apurando “qualquer suposta irregularidade” com base no relato dos trabalhadores e que não aceita “qualquer tipo de trabalho ilegal”. Por fim, informou ter “compromisso em esclarecer os fatos”.

Por meio de uma carta aberta, a Vinícola Aurora – uma das três que usaram mão de obra análoga à escravidão durante a colheita da uva em Bento Gonçalves, na Serra do Rio Grande do Sul – pediu desculpas aos trabalhadores resgatados e se disse envergonhada.

Os recentes acontecimentos envolvendo nossa relação com a empresa Fênix nos envergonham profundamente (…) Gostaríamos de apresentar nossas mais sinceras desculpas aos trabalhadores vitimados pela situação. Ninguém mais do que eles trazem, nos ombros curados pelo sol, o peso de uma prática intolerável, ontem, hoje e sempre“, diz um trecho da nota.

A nota vem depois que, na última terça-feira (28), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) suspendeu a participação da Aurora, além da Cooperativa Garibaldi e Salton, de suas atividades.

A ApexBrasil é um serviço social autônomo vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que promove os produtos brasileiros no exterior.

Em nota à imprensa, a Cooperativa Garibaldi disse que “repudia qualquer prática que afronte o respeito ao ser humano ou comprometa sua integridade”.

Já a Vinícola Salton, em nota à imprensa, afirma que “repudia, veementemente, qualquer ato de violação dos direitos humanos”.

Deixe seu comentário aqui

Botão Voltar ao topo