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Acordo Mercosul-UE pode gerar ‘choque de tecnologia’ no Brasil, diz especialista

Por: *Henrique Medeiros | Imagem Ilustração: Mobile Time com IA

O recente acordo comercial entre Mercosul-UE (União Europeia) traz a oportunidade de “choque de tecnologia” para a América do Sul. Segundo Gustavo Menon, especialista em relações internacionais e direito internacional da American Global Tech University (AGTU), a criação desta área de livre comércio permitirá a setores da indústria sul-americana acessar insumos de melhor qualidade, o que pode resultar em produtos e serviços melhores e com menores preços para o consumidor final.

Em contrapartida, Menon explica que veremos os produtos primários da América do Sul (commodities, como grãos e minerais) se capilarizando no mercado europeu, algo que deve beneficiar a indústria extrativista regional e o agronegócio. Contudo, a troca comercial entre os blocos tem pontos de preocupação para os dois lados.

Para o Mercosul, o representante da AGTU aponta que as assimetrias do acordo trazem risco de desindustrialização na região, em especial pela forte indústria automotiva alemã. Por sua vez, a questão europeia está relacionada aos agricultores europeus que podem perder poder de competitividade ante os itens primários sul-americanos que devem chegar ao velho continente.

A expectativa é que tenhamos setores que serão abastecidos com um choque tecnológico com a abertura de mercado. Mas precisamos compreender como isso pode ser perigoso para as indústrias locais. Precisamos analisar isso nos primeiros anos (do acordo), pois sabemos que esses setores são onde se concentram as melhores tecnologias”, disse o especialista. “Nessas relações de troca, nós podemos pensar em uma política industrial para competir em um patamar razoável com a indústria alemã. Não podemos nos restringir a subsídios voltados à indústria”, completou.

Para essas assimetrias não azedarem o acordo Mercosul-UE nos próximos anos, Menon afirmou que os países sul-americanos devem garantir salvaguardas, como aquelas feitas na base do acordo que abordam propriedade intelectual, compras públicas e proteção ao meio ambiente.

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Mais especificamente:

  • O Mercosul não deve desincentivar a sua política industrial;

  • A União Europeia deve resolver as questões de subsídios para os agricultores seguirem ativos no mercado.

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Nas entrelinhas de Mercosul-UE

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Apesar de o acordo de livre comercial dos dois blocos ter demorado 26 anos para ser assinado – o que aconteceu no último sábado, 18 – o especialista apontou que os principais fatores que colaboraram para o avanço do acordo não foram apenas os benefícios comerciais e tributários entre os dois blocos, mas uma oportunidade de navegar em um cenário geopolítico turvo.

Isso acontece especialmente pelos seguintes fatores:

  • Europa pressionada pela guerra comercial Estados Unidos x China;

  • Combates em larga escala na Eurásia (Rússia x Ucrânia) e Oriente Médio (ofensiva israelense na Faixa de Gaza);

  • Fragmentação política e desafios econômicos na América Latina;

  • Inflação global pós-Covid-19;

  • Necessidade de flexibilização frente às ações do tarifaço global imposto pelos EUA;

  • Ações unilaterais e ilegais dos EUA (invasão da Venezuela, ameaças à Groenlândia/Dinamarca e Irã) que colocam em xeque as instituições criadas nos pós-Segunda Guerra Mundial;

  • Retirada de investimentos dos EUA na OTAN a partir do segundo mandato de Donald Trump.

Quando olhamos para a conjuntura do século XXI, vemos que estamos em um mundo em conflagração”, disse. “Estamos neste cenário de guerra comercial entre China e EUA. Isso pressionou a Europa, sem muita margem de manobra, pois possui interdependência das cadeias produtivas chinesas”, concluiu.

*Henrique Medeiros é repórter do Mobile Time.

  • Conteúdos assinados são de responsabilidade dos próprios autores e das autoras.

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