Pessoas de má fé: você conhece alguém assim? Confira essa história

Em 2014, uma senhora de aproximadamente 75 anos, que acabara de me conhecer, resolveu desabafar-se comigo e contar um dilema pelo qual passava havia mais de oito anos. – ‘Parecia uma história de cinema’.
Ela havia trabalhando por muito tempo numa grande empresa, em São Paulo, a qual não existe mais. Ao serem dispensados, ela e outros colegas resolveram entrar na justiça por seus direitos.
Alguns deles, contrataram o mesmo advogado. No caso dela específico, após transitado todos os recursos, obteve o ganho da causa num valor de quase R$70 mil. Porém, o tal advogado, que até então, parecia tratá-la como amiga, mais do que fosse apenas cliente, agiu de má fé e a enganou. Do total da indenização, ele só lhe repassou pouco mais da metade, após descontados seus honorários, acordado em 30%.
Contou o acontecido para uma amiga, que lhe sugeriu contratar um outro advogado, para dessa vez, entrar com uma ação contra o primeiro profissional, por apropriação indébita da diferença. E então a indicou o escritório de um conhecido seu.
Aquela senhora reuniu todos os documentos necessários e, por ser uma indicação da amiga, confiou no novo engravato do direito. Pelos cálculos dela, isso aconteceu em 2006. Tudo certo, combinado os detalhes e as condições do caso, o indicado pela amiga entrou com o processo contra seu colega de profissão. A partir daquele instante, era só aguardar e acompanhar os trâmites na justiça.
Conforme me contou aquela quase solitária anciã, no decorrer das primeiras audiências, sempre era informada do andamento do processo. Porém, passado um tempo, ela notou que as informações já não chegavam como deveriam. Ligava para o escritório ou ia pessoalmente, não mais conseguia falar com o tal novo advogado. Apenas ouvia do secretário, para aguardar que eles entrariam em contato.
Com isso, os anos foram-se passando e nada de receber qualquer comunicado do escritório. Desconfiada, procurou a amiga que lhe havia indicado o escritório. Relatou os fatos e esta lhe prometeu conversar com o doutor para saber o andamento do caso. De nada adiantou.
Sem ter à quem apelar, não lhe restava outro jeito, a não ser esperar. No entanto, essa espera foi bem maior do que imaginava. E uma coisa começou a encucá-la… ‘por que o aquele novo doutor a estava evitando tanto’? Então resolveu voltar a ligar para o escritório e aí teve a certeza de que o tratamento só estava piorando. O atendente simplesmente dizia que o advogado não estava, enfim.
Eu… na história
– Enquanto ouvia atentamente, todo o relato daquela quase octogenária, na minha cabeça já passava um filme.
Me prontifiquei a ajudá-la. Ela agradeceu e aceitou na hora. Ah, um detalhe… ela era a única pessoa viva da família, exceto alguns poucos parentes, aos quais não quis contar sobre o assunto.
Então, a pedi que fossemos ao tal escritório, sem avisar ou agendar. Não deu outra. Chegando lá, advinhe quem estava…? O próprio.
O doutor se mostrou surpreso ao vê-la alí, indo em sua direção, só que desta vez, acompanhada por outra pessoa. Ele estava acostumado vê-la sempre sozinha. A impressão que eu tive, naquele momento, foi que ele procurou um buraco para se enfiar. Não esperava aquela visita. Ela me apresentou como seu sobrinho. – O que não era verdade, mas perante a circunstância, tava valendo.
Logo, ele foi tratando de se justificar. Porém, a idosa o interrompeu, reclamando que havia tempo não recebia nenhuma notícia e sempre que ligava ele não estava. Aproveitei a deixa e pedi o número do processo, pois a partir daquele dia, eu iria acompanhá-lo juntamente com ela.
Ele pegou uma pasta e me passou o que solicitei. Mas, não sem antes argumentar que o processo é demorado, etc, etc, etc. Após sairmos de lá, mais tarde acessei o processo via internet. Ao ler algumas clausulas, embora eu não sendo da advocacia, percebi havia algo estranho.
No dia seguinte, falei com a senhora e a sugeri a gente fosse ao fórum onde transitava o caso, para obter informações mais precisas.
O Fórum
Nos dirigimos para a 29ª Câmara do Direito Privado, na zona norte da cidade. Ao sermos atendidos, explicamos o ocorrido. A funcionária verificou os autos e confirmou a minha suspeita.
O caso havia transitado e julgado já há um certo tempo. Ou seja, os juízes já haviam lhe dado ganho da causa. – Confira aí trecho da decisão… ACORDAM, “em 29ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Negaram provimento ao recurso, com observação. V. U.”, de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão”.
O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores… (optei não revelar aqui seus respectivos nomes).
São Paulo, 7 de dezembro de 2011.
Apesar de o réu ter contestado e entrado com recursos, etc, teve suas apelações indeferidas pelo Tribunal de Justiça. Ou seja, mais uma vitória da pobre velhinha. Porém, o seu novo advogado, teria omitido isso dela. Sabe-se lá, por qual motivo.
De posse dessa confirmação, a partir daí, fui eu quem passei a fazer contato com o advogado. E não aliviei.
Liguei para o escritório, disseram que não estava. Liguei para o celular, atendeu. Quando me identifiquei, retrucou dizendo estava em audiência, não poderia falar, desligou. Tentei outras vezes, sem sucesso.
Optei enviar um e-mail. Descrevi todo contexto do que havia apurado, pedindo-lhe explicações e prazo para efetuar o pagamento.
Aí ele reagiu. Ao ler o conteúdo, rapidamente ligou para a dona da causa e depois me respondeu indignado, dizendo já estava tratando diretamente com ela e não mais me responderia sobre o assunto (eu ainda guardo esse documento).
Conclusão… em apenas dois meses e meio, aproximadamente, consegui desvendar uma Ação que já havia sido julgada há anos, sem que a sua autora soubesse. Imediatamente o bacharel providenciou o depósito de poco mais de R$36 mil na conta dela. Já deduzido seus honorários, também de 30%.
Por minha participação, não cobrei nenhum centavo dela e na sequência ainda a auxiliei na renovação do contrato do seu aluguel, junto a imobiliária. Ela ficou muito feliz e agradecida.
– Eu pude notar, como aquele meu pequeno gesto teve um significado importante para aquela senhora. Espero isso sirva de inspiração para você, também, entre outras coisas, nunca desistir de batalhar pelo que realmente é seu. Não importa o tempo que levar para conseguir. Ou contra a quem, tenha que lutar.
Fotos: Ilustrativas

