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Jacinta Passos, um nome a ser lembrado

Em resposta ao convite feito por comunicadores [a exemplo do editor do Acesse News], na ocasião em que acontecia uma entrevista coletiva sobre a parceria entre a Academia Cruzalmense de Letras e o Coletivo de Mulheres Jacinta Passos, resolvi enfrentar o desafio, juntamente com as companheiras do Coletivo, e escrever uma coluna periódica abordando as questões que atravessam a vida das mulheres.

Considerando que muitas integrantes do Coletivo são escritoras e/ou leitoras vorazes de escritoras, nada mais pertinente do que iniciar essa coluna abordando a vida da escritora cruzalmense que, não por acaso, se faz presente em ambas as organizações: Jacinta Passos

Jacinta Velloso Passos nascida em Cruz das Almas no dia 30 de novembro de 1914 na Fazenda Campo Limpo, foi uma escritora e poetisa brasileira, notória por sua história rica, cheia de meandros, reviravoltas e um final pouco feliz.

Jacinta Passos, também era jornalista, militante política de esquerda e feminista.

Em 1951, quando já havia publicado três livros,”Jacinta teve uma forte crise nervosa, seguida de delírios“. Levaram-na a um médico psiquiatra que a diagnosticou como portadora de esquizofrenia paranoide. Inicia-se então uma sequência de internações para tratamento em diversas clínicas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Após um breve período de alta (iniciado em 1952), ela voltou a ser internada na mesma clínica de São Paulo, e alguns anos mais tarde, voltou a morar com a família, em Salvador onde passou a maior parte do tempo trancada em seu quarto, com sua máquina de escrever e muitos recortes de jornais e livros.

Seu quarto livro “A Coluna” foi lançado em 1958, um longo poema em 15 cantos, que recria a história da Coluna Prestes, foi escrito em seu último período de internação na Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo. No mesmo ano, enquanto vendia seu livro na Central do Brasil, foi detida pela polícia que alegou que a publicação fazia apologia à campanha comunista no Brasil.

Ainda em 1958, em Salvador, Jacinta voltou a ter crises e foi internada por 6 meses. Ao se recuperar, mudou-se para Petrolina (PE), onde permaneceu até 1962. Mudou-se então para Barra dos Coqueiros (SE), e retomou sua forte atuação política, mesmo após o golpe de 1964. Em 1965, foi presa, após denúncia do prefeito. No mesmo ano, foi presa em Aracaju por escrever palavras de ordem em um muro e enviada para o Sanatório Público Adauto Botelho, quando perceberam que ela sofria de transtornos mentais.

A família de Jacinta a transferiu para a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu por 7 anos ininterruptos, até seu falecimento por causa de um derrame cerebral, no dia 28 de fevereiro de 1973, quando tinha 57 anos de idade. Nessa última internação, escreveu 3.348 páginas de caderno (quase 16 páginas por dia).

De acordo com o escritor *Florisvaldo Mattos, Jacinta foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia na década de 40, escrevendo sobre os assuntos que mais a interessavam e pelos quais lutava. A saber: política, transformações sociais e posição da mulher na sociedade. Colaborou também com jornais e revistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Militante do Partido Comunista Brasileiro de 1945 até a morte, em 1973, dedicou grande parte da vida ao trabalho penoso, clandestino e cotidiano de luta por um Brasil menos injusto.

Jacinta Passos foi uma mulher revolucionária. Inteligente, feminista, visionária. Pouco conhecida na sua cidade natal, Cruz das Almas, que em sua memória tem apenas uma rua que leva seu nome. Manter vivo o legado de Jacinta e dar seguimento a sua luta libertária é o que se propõe o coletivo de mulheres que leva seu nome. Em outro campo, a jovem Academia Cruzalmense de Letras lhe presta um tributo ao inscrever seu nome na Cadeira número 1, ‘a qual essa modesta escritora tem a honra de ocupar‘.

  • Referências: AMADO, Janaína (Org). Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. Edufba-Corrupio, Salvador, 2010. Obra publicada numa licença CC-BY-NC-SA. *MATTOS, Florisvaldo.

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**Maria das Graças Sena, poeta, roteirista, atriz e Presidenta do Coletivo de Mulheres Jacinta Passos. Siga: @resistenciafeministacda/

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